Eu conseguia perceber, sem muita dificuldade o quanto ela estava deslumbrada comigo. Era perceptível, e nunca ninguém, nenhum humano conseguiu disfarçar isso. Mas será que ela não percebia o quanto eu estava deslumbrado? O quanto ela era impressionantemente linda e irreal para mim? Aparentemente não.
Ouvir seu nome, pronunciado pela sua delicada voz e pela sua irresistível boca, era melhor do que eu havia imaginado. Seu doce e quente hálito era como um oxigênio, do qual eu já virara dependente em apenas alguns minutos. A sensação que produziu em minha pele, o contraste do maravilhosamente quente com o inegável gelado era extasiante.
Eu saboreava cada palavra que ela proferia, e ficava ansioso por ouvir sempre mais. Nada se comparava a poder apreciar suas expressões e seu jeito um pouco tímido, devido a minha presença intimidante, abertamente. Nenhuma espionagem pagaria e agora eu me xingava por dentro por não ter feito isso antes.
Todas as suas primeiras palavras eu já sabia, todas as suas primeiras respostas, mas fechei minha expressão em sério interesse, enquanto me deliciava por estar perto dela. E eu sabia que viriam perguntas, já que isso seria o começo da aproximação, uma apresentação, e estava preparado para isso. Ri internamente da minha luta interior por ter desejado mostrar-me antes, ao mesmo tempo em que me parabenizava por ter me preparado o suficiente. Poder responder satisfatoriamente as perguntas.
-Então você é novo aqui? Você estudava em outra universidade antes? – Era encantador o desejo que Persephone sentia por saber mais sobre mim, sem saber disfarçar isso em sua voz. Existia mais alguma coisa na entonação que eu gostaria de descobrir.
-Eu vim transferido de Dartmouth. - respondi de forma simples e natural, sem desgrudar meus olhos dos dela. E ela não desviou o que me deixou completamente feliz e ao mesmo tempo intrigado. Comemorei o fato de ter me esforçado na caça somente de animais. Não poderia assustá-la. Completei minha resposta da forma mais apaixonada e ao mesmo tempo contida que pude. –Yale sempre foi meu sonho.
Como eu esperava, ela falou de forma convicta. - Yale é o sonho de muita gente. – Eu sentia a paixão de suas palavras. -O meu também. - Eu poderia lhe dizer com a mesma paixão que ela era o meu sonho, desde o momento em que eu a vi. Ela sorriu e aquilo iluminou minha noite de tal maneira, me fazendo acreditar por um breve momento, que eu nunca andara nas trevas, por todos esses anos.
Ela ficou quieta por um momento e eu fiquei apenas a observando, tentando decifrar mais uma vez sua expressão. Seu cheiro ainda me queimava por dentro, mas eu tinha que me permitir senti-lo, por mais que doesse. Eu tinha que me acostumar a ele, porque não senti-lo seria mortalmente pior.
Poucos minutos se passaram quando ela voltou a falar. –Então, se você é novo, o que acha de entrarmos e você se enturmar um pouco?- Percebi que por trás de seu tom distraído ao me convidar, existia algo mais, que eu não conseguia captar. Mas não pude pensar em mais nada, pois à vontade de declinar ao seu convite era infinitamente maior. Não! Eu não queria dividi-la com ninguém. Não me era importante conhecer nenhum humano, pois nenhum chegava aos seus pés, nenhum era digno de estar à luz de sua presença.
Mas é claro que eu aceitei, e então entramos na festa. Prendi a respiração por precaução, mas posso dizer que nenhum cheiro me chamava à atenção. Seria como várias garrafas de cerveja choca ao redor do mais caro, raro e refinado vinho. Eram meros súditos rodeando a entrada triunfal de uma Rainha. Entramos lado a lado, com a minha mão encostada leve, mas protetoramente em suas costas, sobre o tecido de seu vestido. Não precisava olhar para os lados para saber que todos estavam nos encarando. Apenas ignorei, pois nada ali me interessava além dela. Percebi pela tensão de seu corpo que ela estava nervosa com todos os holofotes virados para ela. Persephone se virou e sorriu mais uma vez para mim. Sorri de volta em resposta me sentido triunfante.
Ela me apresentou aos seus amigos. As mulheres eu já sabia quem eram, mas os caras eu nunca havia visto. Só eu percebi que eles olharam para ela de forma um pouco diferente? Ou era coisa da minha cabeça, pois ela se referia e agia perto deles de forma natural, amigável. Sei que um sentimento poderoso, irado e egoísta se apoderou de mim. De uma coisa eu tinha certeza: eles não sairiam vivos em qualquer tentativa de cortejá-la.
Essas sensações se passaram em minha cabeça de forma muito rápida, mas por fora eu era o símbolo da descontração e simpatia. Todos falamos muito pouco, pois as mulheres estavam igualmente deslumbradas e felizes por Persephone, acho que era essa a descrição mais apropriada. Os caras sentiam-se intimidados pela minha presença.
Mas eu não deixava de olhá-la e tentar fazer com que ela percebesse que eu estava ali por ela e nada mais me importava. Queria ficar só com ela, tê-la só pra mim e descontraidamente falei em seu ouvido:
-O que acha de beber alguma coisa?- Persephone apenas acenou com a cabeça em concordância e com um aceno cortez me despedi de seus amigos. Coloquei o braço delicadamente em sua cintura, guiando seus passos, para longe da mesa de bebidas e levando-a para o meio da pista de dança. Enlacei-a completamente pela cintura e a puxei para mais perto, jogando o pouco de cautela para o alto, pensando somente no privilegio de tê-la tão próxima de mim.
Fiquei o mais próximo possível de seu corpo. Eu não sabia descrever ao certo o que estava sentindo. Ao mesmo tempo em que aquele gesto era conhecido para mim, à sensação que era emitida do meu cérebro para o meu corpo era totalmente desconhecida. Se meu coração ainda batesse, ele estaria igualmente acelerado, como o de Persephone. O bater de seu coração era o som mais perfeito naquele lugar. Era o único que eu queria manter vivo, pulsando e ao mesmo tempo em que queria tê-la ao meu lado por toda a eternidade. Era uma luta interna feroz, que me rasgava por dentro, e foi no meio dessa luta que ela finalmente recuperou sua fala.
_O que estamos fazendo? – seu coração pareceu disparar ainda mais, esquentando meu corpo inteiro. Sorri para ela, querendo dizer que havia levado ela para a pista de dança para tê-la só para mim. Ela prendeu a respiração esperando minha resposta.
_Pensei que gostaria de dançar um pouco! – Falei de forma totalmente casual, fazendo parecer que aquele gesto era a coisa mais natural do mundo. Mas sentir seus braços em volta do meu pescoço, sua respiração e cheiro tão perto era torturante e fascinante. Nunca senti tanta necessidade de beijar uma boca, como eu sentia agora, aos nos encararmos. Seus lábios estavam entreabertos, como se estivessem prontos para receber os meus. Era tentador demais! Aproximei-me devagar de seu rosto. Mas eu não podia fazer isso. Não deveria arriscar e como desculpa por meu gesto falei em seu ouvido ainda de forma descontraída:
_E que curso você faz aqui? – Perguntei me sentindo ridículo por questionar algo que eu já sabia. È claro que eu não poderia simplesmente adivinhar, mas o que me deixava irritado era o fato de que eu precisava desviar para assuntos banais ao invés de tomá-la em meus braços.
Por mais que ela quisesse disfarçar eu pude perceber um pequeno grão de desapontamento na sua resposta. _Medicina – ela deu uma pausa. _ sexto período. - Eu apenas sorri para ela, esperando que ela me perguntasse de volta. Mas algo a fazia ficar totalmente calada. Ainda dançando, eu queria dizer o mais alto que pudesse com todas as letras: “Dane-se a segurança! Eu quero você pra mim, muito mais que eu quero o seu sangue. Você não percebeu?” Mas eu não podia. Dessa vez teria que ser diferente.
Dançamos colados pelo resto de nossa noite, enquanto eu me dividia em intervalos de prender a respiração e tomar cuidado com a sua vida, intercalando o desejo crescente de sentir seu cheiro e me deixando torturar, sentindo-o na ponta da minha língua. Tinha medo de tê-la decepcionado. Mas era para o bem dela e para o restante de minha sanidade mental. Persephone falou, fazendo com que essa briga cessasse.
_ Está tarde – O tom de chateação em sua voz era bastante claro. - Preciso ir agora. – Agora era minha chateação que aumentava. Seria insuportável me separar dela, nem quem fosse por algumas horas. – Vou te acompanhar até a sua casa. Está tarde. – sorri ao dizer isso.
Eu já sabia onde ela morava, mas tomei o cuidado de andar como se estivesse sendo guiado por seus passos. Persephone morava em um dos alojamentos de Yale. Eu já havia vigiado o local em que ela morava. Ainda mais depois de tomada a decisão de me apresentar a ela. Eu passava todas as noites rondando o lugar.
Andamos calados por todo o caminho e vez ou outra ela levantava a cabeça e sorria para mim. Era a visão mais bela. Eu sorria de volta com toda a sinceridade e delicadeza que eu conseguia reunir. Ela parou a porta do prédio onde ficava o seu dormitório e remexeu na bolsa para procurar sua chave. Ao abrir a porta, ela me olhou mais uma vez.
_Obrigada pela ótima noite!- ela falou – Durma bem. – Depois que ela me beijou de leve no rosto eu disse. – Durma bem também. – Ela hesitou um pouco como se esperasse algo mais. E eu queria dar o que ela queria. Ainda mais agora que eu estava sentindo com enorme intensidade o local em que ela havia tocado com os seus lábios, queimar de forma inexplicável. Queria sentir mais aquela sensação, mas eu não sabia se estava pronto. Sai correndo antes que ela pudesse me ver de novo. Eu tinha raiva do que eu era em certas horas, mas tinha um ódio mais mortal de não ser forte o suficiente para transformá-la. O medo do resultado me assolava de forma devastadora. Só para estar pero dela, eu tinha que tomar todas as precauções possíveis e executar um esforço inumano. Como caçar mais do que necessário.
Somado a isso, eu ainda vinha me obrigando a caçar mais animais para que meus olhos não ficassem vermelhos e pudesse assustá-la. Não era um sacrifício fácil. Só de pensar no sangue medíocre dessas criaturas e na quantidade que eu vinha tomando nos últimos tempos, formava um nó em minha garganta. Mas eu agüentaria, até o momento de revelar a minha verdadeira essência. E foi isso que fui fazer quando saí dali. Fui caçar. Corri até o lugar mais próximo, que tivesse animais pelo menos excitantes de se caçar. E grandes o suficiente para aparentar perigo. Passei a noite toda tentando fazer com que a caça fosse emocionante e me fizesse esquecer por um momento do maravilhoso gosto do sangue humano.
Quando me senti saciado, mas não satisfeito devo acrescentar, já estava quase raiando o dia. Tinha que me recolher o mais rápido possível e torcer para que o sol não aparecesse. Eu torcia para que ela estivesse esperando que eu aparecesse e eu ansiava em vê-la. Entrei no meu carro, fechando as janelas e segui para os Arredores de New Hampton, para a minha “casa”.
Troquei de roupa e fiquei sentado em uma poltrona que ficava em um ambiente antigamente denominado sala. Tentei desligar minha mente de qualquer preocupação tentando fazer com que o tempo passasse de forma rápida e torcendo para que o dia fosse nublado. Sem perceber, comecei a analisar o cômodo a minha frente, sentindo como era um ambiente hostil e sombrio, para uma pessoa quente como Persephone. Depois de tudo pelo que passei e de ter passado para essa semivida, eu nunca mais considerei essa casa como o meu lar. Na verdade nunca tive esse conceito de lar, mesmo em vida. Portanto, na minha atual condição, aquela casa era como uma toca. A toca do monstro, onde ele leva suas vitimas para atacá-las de forma mais sofisticada.
E se eu tivesse que trazê-la até a minha toca? Ela não poderia ser parecida com a toca de um monstro e sim com uma casa. Eu tinha duas opções: torná-la uma casa, mascará-la com moveis e decorações típicas humanas. Mas como explicar que um cara de 24 anos, estudante tinha uma casa daquelas? A outra opção seria morar em um dormitório com outros estudantes. Mas pensando pelo lado prático seria muito perigoso para quem estivesse comigo. Não que eu ligasse para a segurança de qualquer humano idiota, mas não seria interessante, pelo menos no começo um colega de quarto aparecer morto.
Apesar de todos os contras, essa opção se tornou tentadora demais. E era isso o que eu iria fazer. Iria até a Universidade antes de me encontrar com Persephone novamente. Havia deixado passar esse detalhe, mas agora tinha que consertar antes que fosse tarde. Subi para o meu quarto, olhei pela janela e vi que o dia estava completamente nublado. Perfeito! Era exatamente disso que eu precisava. Coloquei uma calça jeans escura, uma camisa branca e um blazer escuro da mesma cor da calça. Olhei-me no espelho. É, eu estava próximo de humano, só que bem superior, devo acrescentar. Após me arrumar, peguei meu carro e segui para a cidade. Não posso negar que estava adorando andar de carro, e que exploraria a velocidade máxima dessas maquinas. Era mais emocionante ainda pensar que eu poderia andar na máxima velocidade de meu carro, sem a iminência da morte a espreita. A sensação era extasiante.
Cheguei em Yale em poucos minutos, e rumei para a secretaria do curso de Medicina. Primeiro eu tentaria da forma básica, e caso não conseguisse, apelaria para os meios hierárquicos. Cheguei à secretária e pedi informações sobre alojamentos. Preparei-me para usar meu poder. Não estava com muita paciência de ter que repetir minha historia de novo. A atendente, uma moça de uns 25 anos estava distraída mexendo no computador a sua frente e mal notou minha entrada. Eu já tinha a pericia em andar sem fazer o mínimo de barulho.
Olhei no crachá dela, antes de chamar sua atenção. –Bom dia, Srta Law! – Ela ficou muito desnorteada, deixando cair uma pilha de papeis de cima da mesa, com o susto por ter sido interrompida sem perceber e com a minha aparência. Ela não era de se jogar fora, e além do meu talento de persuasão eu poderia apelar para a sedução. Ela poderia ser uma boa refeição quando eu acabasse essa dieta vegetariana. Suas bochechas rosadas me deixaram com mais fome, mas eu me segurei e deixei Persephone tomar conta de minha mente, me concentrando no que eu deveria fazer.
Ela conseguiu se recuperar um pouco. – Boa..hmm..tarde, Sr...?- Ela ainda gaguejou um pouco, e para tentar se recuperar ainda mais, deixou a frase no ar, perguntando meu nome. – Seth Caldwell . – Ela pigarreou mais uma vez, e depois falou, tentando esboçar um sorriso. -Em que posso ajudá-lo?- Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo e ao abri-los encarei profundamente a mulher que estava em minha frente. Uma vez feito isso, ela não conseguiria desviar o olhar. Agora era trabalhar coma minha mente para que ela prendesse a de quem estava a minha frente. Seus olhos ficaram vidrados em mim e quando eu começasse a falar com ela suas respostas seriam automáticas. Eu falaria e emitiria as respostas para o seu cérebro.
_Eu acabei de ser transferido de Darthmouth e preciso de um alojamento.- Sorri, por mais que não fosse necessário, eu não conseguia me refrear. E no mais, entenda que a pessoa a minha frente corresponderia a todos os meus gestos, com o único pormenor de não desviar os olhos dos meus. Ela sorriu de volta. –Só que tem um pequeno problema: eu preciso de um quarto só para mim. – “Apenas diga que é possível, e que você colocará um motivo plausível na minha solicitação. Espero mudar ainda hoje para o meu alojamento.” Continuei sorrindo para ela, como se meu pedido não fosse nada mais que o corriqueiro. Ela ainda ficou um tempo presa ao meu olhar e quando eu a liberasse, ela ainda reagiria positivamente aos meus pedidos por um tempo. Eu havia usado meu poder de forma máxima agora, e ela só poderia aceitar. Desviei levemente meu olhar do seu e ela começou a me responder, como se nada tivesse acontecido ali.
-Oh, sim! Acho que não terá problema. Eu sei o quanto deve ser difícil ser transferido no meio do ciclo. Você pode voltar aqui antes de finalizarmos o expediente para que eu possa te passar tudo, caso tenha a possibilidade? E no mais, as férias começaram agora. Talvez você faça amizade com alguem... - Fechei meus olhos por um segundo e ao abrir dei um sorriso que não se estendeu a eles. Encarei-a mais uma vez, prendendo seu olhar, para que a fizesse entender.
_ Tem certeza que você não pode ver isso para mim agora?- Falei com um toque de suplica na voz. Mais uma vez, mantive o contanto visual e profundo. “Acho que não fui claro querida. Eu preciso da resposta POSITIVA agora! Vamos, eu sei que você pode e deve fazer isso”. Mais uma vez soltei meu olhar do seu, um pouco bruscamente agora, e ela se desequilibrou. –Nossa, essa cadeira deve estar com algum problema.- falou um pouco confusa e com vergonha por quase ter caído. Voltou a olhar para mim, abrindo um sorriso bem maior dessa vez. Eu correspondi, e deslumbrada com a visão ela corou furiosamente. Mas me respondeu. – Deixe-me só dar uma olhada aqui Sr Caldwell!- Mexeu nos papéis em sua frente e voltando a olhar para mim, falou. –Oh, nós temos um quarto vago. Ele é um pouco menor, mas acho que será perfeito para o Sr. No outro semestre, se estiver se sentindo mal naquele alojamento, poderá trocar. Talvez você faça amizades até lá. Com seu jeito tão encantador... hmm..me desculpe. Mas você pode preencher esses papeis para mim e poderá se mudar hoje mesmo.- Ainda sorrindo, peguei o formulário que ela me estendia e comecei a preencher. Eu sabia que não seria tão difícil. Mais uma parte do meu plano estava finalizada e com sucesso!
***
Com tudo arranjando, fui até a minha atual casa, fazer a mudança. Como se eu tivesse muitos materiais que me prendessem a esse mundo. Eram mais roupas e alguns livros que existiam lá desde tempos remotos. É claro que eu teria que comprar os livros do curso para que não houvesse nenhuma falha. Coube tudo no carro, e fiz a mudança em apenas uma viagem. Estava com a chave do dormitório e quando entrei no prédio fiquei feliz por não ter muita movimentação. Pelo pouco que eu ouvira o semestre tinha acabado e muitos provavelmente estavam dormindo ainda. Os poucos que passaram por mim no corredor olharam duas vezes. Ignorei um por um e ao chegar à porta do meu quarto, destranquei-a e entrei.
É, nada mal! Não iria dormir aqui mesmo! Seria apenas um cenário para que eu pudesse desempenhar meu papel. Entrei e tranquei a porta, antes que alguém pudesse vir dar boas-vindas. Com tudo fechado, pude arrumar o quarto de forma decente com as minhas coisas. Fiz três viagens do carro ao quarto para não exagerar e ninguém me ver carregando muita coisa. Se algum estudante estúpido visse uma espécie de Super-Homem ali, com certeza iria querer se aproximar. Ia ao carro, pegava as coisas, entrava e me trancava arrumando tudo. Depois de pouco tempo tudo estava completamente arrumado. É claro que eu ainda precisaria comprar alguns acessórios, mas isso seria aos poucos. Não sei se a levaria ali hoje, mas tinha que deixar tudo muito bem preparado. Se ela estranhasse a ausência de qualquer coisa ali, tinha uma desculpa perfeita: perda na mudança. Pronto, tudo estava arranjado.
Tranquei meu quarto e sai pelo campus a sua procura. Não sabia onde poderia achá-la, mas isso não seria tão difícil. O dia estava completamente nublado ainda. Fiquei notavelmente feliz, já que agora teria que depender desse fator tão imprevisível. Passei por seu dormitório, e seu cheiro estava impregnado no local, mas ela não estava ali. Era apenas uma impressão de seu cheiro, deixado em suas coisas.
Andei um pouco sem rumo, mas como se meus pés soubessem onde me levar. Quando cheguei perto do prédio da Biblioteca, senti seu cheiro, fracamente, mas como se estivesse se aproximando de mim. Vi Persephone sair do prédio, com a cabeça baixa e simples como eu a vira todos os dias antes da festa. Mas ao vê-la, foi como se a luz do sol tivesse aparecido e iluminado todo o meu caminho. Sempre seria assim ao vê-la? Não saberia dizer, mas era o que ela representava para mim agora: uma luz cálida iluminando os caminhos mais sombrios e assustadores da minha vida. Já conhecia muito bem os seus gestos, seu jeito de ser de longe. Ela sempre andava assim de cabeça baixa e eu a faria ergue-la, para mostrar que ela era um rainha e não uma simples mortal.
_Persephone!- chamei por ela. Ao me ver, pareceu ficar feliz. Sorri aberta e sinceramente para ela e ouvi seu coração acelerar. Aspirei o cheiro ao redor, misturado ao seu, para me satisfazer ainda mais com a sua presença. Ao me aproximar, ela me cumprimentou causalmente.
_ Oi! – Tive que sorrir mais ainda com a sua tentativa de disfarçar sua surpresa. – Tudo bem? – Cheguei bem perto dela e lhe dei um beijo no rosto, segurando levemente em seu braço.
_Tudo muito melhor agora!- Mesmo que o propósito não tenha sido fazê-la corar, eu adorei o resultado. A cor apetitosa que se formou em suas bochechas era fascinante. Seu coração ainda estava batendo aceleradamente. Puxei conversa, para não deixá-la ainda mais encabulada. – Espero que tenha dormido bem!- Olhei para os seus braços carregados de livros, enquanto ela parecia se recuperar do encontro repentino e de minhas palavras.
-Dormi bem sim. Um pouco mais do que o normal.- Persephone sorriu levemente e olhou para onde eu acabara de olhar. Antes que ela pudesse falar alguma coisa peguei os livros de suas mãos.
_Não acho que você precise carregá-los comigo aqui.- Olhei para os títulos, e não tinha nada técnico ali, mas mesmo assim os livros eram enormes e pesados. –Por que não aproveitamos que as férias começaram? Vamos relaxar um pouco! O que acha? – Fiquei com um pouco de medo de a ter ofendido, mas ela sorriu e se encabulou ainda mais quando seu estomago roncou. Tive a idéia repentina de convidá-la para almoçar. Poderia comer para disfarçar ou falar que já havia comido.
_Que tal eu te levar pra almoçar?- Levantei as sobrancelhas esperando a sua resposta.
_Eu estava mesmo indo comer alguma coisa. – Persephone sorriu para mim.
_Ótimo! Então vamos! Quer que eu te leve em algum lugar especial? – Decidi deixá-la escolher o que queria fazer, para que ainda não parecesse imposição.
-Oh! Nada especial, vamos à cantina da faculdade mesmo. – Andei ao seu lado querendo por tudo abraçá-la, mostrar para todos que ele era minha, mas não o fiz. Ainda tinha receio de demonstrar o que eu estava sentindo. Era questão de tempo e eu precisava ser correspondido, sem precisar usar minha especial persuasão.
Andamos em silêncio pelo curto caminho até a área de alimentação. Ao chegar lá fiz uma vênia e perguntei:
_O que minha bela dama gostaria de comer?- sorri para que ela entrasse na brincadeira e não me achasse exagerado. Ela sorriu de volta, ainda um pouco envergonhada, mas já se soltando.
_Oh Milorde, quero apenas um sanduíche e um suco.- Fez um cumprimento de acordo com o meu e depois sorrindo falou. –Pode deixar que eu vou pegar Seth, você já está fazendo o bastante.
_Não, hoje eu te servirei! – sorri mais uma vez e encaminhei-a para uma mesa. Eu já conhecia seus hábitos e sabia do que ela costumava comer. Mas deixei que ela escolhesse para não dar muito na cara.
_Quero apenas um sanduíche natural e um suco de morango com água e pouco açúcar. - O mesmo pedido de sempre. Com algumas variantes, claro. Hora era suco de laranja, mas na maioria das vezes era de morango. Sempre um sanduíche natural, ou algum salgado. Eu precisava colocar mais emoção em sua vida. fazê-la sair do trivial, do mais do mesmo.
Fui até o balcão e fiz o pedido. Paguei e voltei para me sentar junto dela. Não, eu não comeria nada. Seria fácil dizer que já havia comido. Quanto mais eu conseguisse evitar seria melhor. É claro que eu não deixaria margens para sua desconfiança, mas não precisava sempre ceder. Hoje era o primeiro dia que comia com ela, tinha tempo para me sujeitar aquilo.
Continuaria tentando fazer com que ela falasse somente dela, de sua vida. Quanto mais evasivo eu fosse e quanto mais conseguisse disfarçar, seria mais seguro. _ Me fale mais de você. Desde ontem a noite que eu venho desejando te conhecer melhor, mas tenho medo de estar te incomodando. Sendo linda desse jeito e inteligente, muitos homens devem ficar aos seus pés!
Eu não estava tentando induzir resposta e mesmo que aquilo fosse da boca pra fora, o lance dela ter homens aos seus pés me deixava possesso. E eu ainda não acreditava que isso não era a mais pura verdade. Ao mesmo tempo em que eu ficava estupefeito com o fato dela não ter ninguém eu ficava aliviado. Os humanos eram frouxos mesmo e tinham medo de mulheres como ela, linda, inteligente e independente. Sim, eu na verdade ficava feliz por ela ser assim. E por ser eu quem quebraria essa barreira. Sabia também que tudo isso se devia ao fato dela ser tão estudiosa e concentrada em seus objetivos. Persephone ficou um pouco envergonhada e mais uma vez me tentou com suas bochechas coradas. Prendi minha respiração e prestei atenção em sua resposta.
_O que eu posso falar de mim?- Ela tentou abrir um sorriso, mas ainda estava um pouco envergonhada do que eu havia falado. –Bom, em toda a minha vida eu sempre estudei muito. Segui um caminho totalmente diferente do da minha mãe. Ela é historiadora, por isso esse nome ridículo. – Ela parecia ao mesmo tempo aborrecida e feliz por falar da mãe, e do nome que ela tanto odiava. - Ela nunca falou abertamente, mas acho que gostaria que eu seguisse seus passos. Mas ela é muito moderna para impor qualquer coisa. E eu não me vejo fazendo outro curso, não me vejo tomando outro rumo na minha vida! Eu amo demais a medicina!- A paixão com que ela falava aquilo me deixou um pouco enciumado. Será que ela falaria sobre mim daquele jeito algum dia? Eu não suportaria se a resposta fosse não. Percebi que ela não falou nada a respeito do meu comentário sobre os homens e que talvez nem falaria. Mas também senti que não era tão fácil falar tudo aquilo na frente de um estranho. Ou seria na minha frente? Pois eu a vira sendo muito comunicativa com todos ao seu redor. Isso também doeu um pouco no meu peito.
Seu pedido chegou e ficamos em silêncio enquanto a garçonete confirmava os itens. Persephone percebeu que eu não pedira nada, mas no começo encarou como um erro da garçonete. –E o seu pedido, Seth?- Ela olhou de mim para a garçonete, que ficou confusa. Eu a dispensei com um aceno de mão, agradecendo-a.
_Está tudo certo, obrigado!- Persephone ficou um pouco boquiaberta, me indagando com os olhos. –Eu acabei almoçando um pouco mais cedo, pois precisei resolver algumas pendências na Universidade. Fique tranqüila. Peço desculpas por não te acompanhar, mas que isso fique como um convite pendente para um jantar.- Persephone não retrucou, talvez um pouco surpresa com o convite e começou a comer. Achei melhor contar coisas triviais, fazê-la achar que já fazia parte do meu dia a dia, da minha vida.
_Consegui um alojamento na Universidade. Diziam que era bem difícil em uma época dessas, mas foi extremamente fácil. E o que é melhor, consegui um quarto menor, mas que ficará só para mim. – Tentei falar com um entusiasmo estudantil, como se estivesse contagiado e extasiado pelo feito por mim realizado. Persephone continuava a comer calmamente e então entre uma mordida e outra exclamou.
_Nossa Seth, isso é perfeito. Um quarto só para você. Me dê essa sorte que você tem!- Brincou e continuou a comer. Isso era um bom sinal. Por mais deslumbrada e encabulada que ela ficasse na minha presença, ela estava começando a se acostumar. Continuei a falar, até que ela terminasse.
_Mas agora temos as férias não é? Um bom momento para colocar as coisas no lugar e me acostumar.- Ela estava terminando o seu sanduíche. Lembrando das férias, eu estava louco para saber o que ela iria fazer. Não suportaria ficar longe dela. Portanto, quando vi que ela estava terminando, indaguei. – Tem planos para as férias? – “Eu espero que não e se tiver, não vou agüentar não impedir. Não posso ficar mais um dia longe de você!” Meu desejo era falar isso para ela, mas como eu faria para não parecer ridículo e obsessivo? E no mais, eu tinha meu jeito de fazê-la não ir, mas não queria usar meus poderes tão já com ela. Persephone engoliu o ultimo pedaço de seu lanche e mexendo no suco com o canudo falou:
-Vou passar as férias com minha mãe. Estou morta de saudades dela, e ela também. Desde que vim pra Yale tem sido assim. Passo as férias de verão com ela, e volto uma semana antes. Isso até que eu arranje um estágio que ocupe mais ainda o meu tempo, por isso gosto de aproveitar.- Ela sorriu com o ultimo comentário e eu sorri de volta, fervendo por dentro. A besta rugiu e gritou: “Não, você não vai deixá-la ir”. Fiquei alguns segundos em silêncio, debatendo se deveria ou não usar meus poderes com ela. Era tão cedo. Tentaria do jeito mais fácil primeiro.
-Você não gostaria de passar férias diferente? Comigo talvez? Eu adoraria ter sua companhia e você me ajudaria a me enturmar. Tudo bem que quase ninguém deve ficar aqui, mas me ajudaria a me acostumar.- Trabalhei bem a hesitação, a pose de menino perdido e deslocado, e torci para que ela aceitasse. Persephone mordeu o lábio inferior, debatendo-se em um conflito interno gigante e eu fiquei ligeiramente feliz, pois contava pontos para mim. Ou ela estava assim por medo de ter que me dar um fora, dizer que não poderia ficar? Eu estava ficando bobo demais. Por fim ela respondeu:
_Seth, eu adoraria ficar. Queria que você tivesse aparecido dois dias antes e assim eu teria inventado uma desculpa, mas não posso deixar minha mãe na mão. E no mais, você não deve ser tão difícil de se enturmar assim!- Ela tentou fazer uma brincadeira, visivelmente perturbada por negar o meu pedido ou por estar em uma saia justa. Sorri tristemente para ela e abaixei minha cabeça. Ela ficou em silêncio e senti que estava me olhando. Levantei minha cabeça de repente prendendo seu olhar. Não teria outro jeito, teria que ser a força. Fora inesperado e nem que ela quisesse poderia desviá-lo. Não gostei muito de ver seu olhar vidrado no meu, mas ela não me dera outra opção. “Apenas diga que será perfeito passar as férias ao meu lado! Somente isso! O resto eu faço, eu consigo conquistar você sem artimanhas.” Baixei lentamente o olhar, voltando na mesma posição que estava antes de prendê-la. Ela estendeu a mão e colocou-a sobre a minha, olhei para ela dando um sorriso fraco.
_Será que minha mãe ficará chateada que eu fique menos tempo com ela? Bom, se eu disser que tenho que estudar!- Ela sorriu muito empolgada com a idéia e eu sorri de volta. Ainda não era o que eu queria, mas eu teria tempo de convencê-la naturalmente.
-E por quanto tempo eu terei a honra de sua presença?- Falei, agora enlaçando minha mão na dela. Ela voltou a ficar corada e falou. –Acho que os primeiros 15 dias não serão problema!- Mais uma vez não fora plenamente satisfatória a sua resposta, mas já era alguma coisa. Levantei sua mão delicadamente e depositei um beijo leve, sentindo-a estremecer imperceptivelmente e seu coração acelerar.
-Fico extremamente feliz e honrado por tê-la comigo. Você não irá se arrepender, eu juro!- Prendi meu olhar no dela, mas dessa vez de forma diferente. Ela o sustentou, mas abaixou a cabeça sorrindo levemente. Ouvi um suspiro, inaudível para um ser humano, vindo dela e sorri. Ela levantou a cabeça e me pegou ainda sorrindo e olhando para ela.
-O que foi? – Questionou toda encabulada.
-Não é nada, apenas é lindo demais te ver sorrir. Mesmo que seja o mais leve dos sorrisos. Mas vamos agora?- Levantamos e Persephone ainda estava sem palavras. Peguei seus materiais da mesa e saímos da cantina. – Aonde você quer ir agora? Quer conhecer o prédio em que eu estou alojado?- Decidi que seria melhor que eu tomasse a iniciativa nesse aspecto.
Persephone pelo jeito estava tentando não ficar afônica em minha frente e falou um pouco baixo. –Quero sim!- Andamos em silêncio até o local, mas não um silêncio ruim. Era muito bom estar ao lado dela. Olhava-a de vez em quando ainda encarando o chão,com aquele seu jeito de sempre. Eu sorria e balançava a cabeça ao ver isso, sendo surpreendido em uma das vezes.
_Do que vocês está rindo agora, Seth?- Balancei a cabeça mais uma vez e respondi, antes que ela me achasse um idiota.
_Estou feliz por estar com você, só isso!- Ela estreitou os olhos e então continuei. –Eu acho que você devia andar de cabeça mais erguida. Você não tem noção da luz que desprende de você. – Estávamos chegando ao prédio e logo pararmos na porta. –Minha toca agora é aqui!- Ela sorriu timidamente, talvez ainda digerindo as palavras que eu havia dito. Ainda estava olhando para os seus pés. Levantei delicadamente seu rosto.
-É disso que eu falo. Você não deve abaixar a cabeça desse jeito- Segurei-a assim por alguns segundos, e senti sua respiração se acelerar. Estava próximo de tomar coragem de beijá-la, quando o relógio da Igreja bateu Duas horas. Persephone despertou e falou um pouco constrangida e contrariada. –Oh, tenho que ir! Ainda mais se tenho que enfrentar minha mãe!
Dei um beijo rápido no seu rosto e então, segurando-a no braço como se ela fosse uma boneca de porcelana, extremamente quebrável falei. –Antes de mais nada, quer jantar comigo essa noite? – Ela assentiu com a cabeça. – Te pego às 20h!
Tracei com o dedo indicador seu braço até seu pulso e beijei sua mão. Ela me deixou ali, esperando ansiosamente que a noite chegasse.