Quanto à vida de um ser pode ser entediante? É isso que explica a obsessão por certo alguém ou algo especifico? Tédio? Não pode ser! Mas antes de ter paciência para explicar para mim mesmo o porquê de minha atitude hoje e no ultimo mês, eu sei que não vou conseguir ficar sem olhá-la. E o que é arriscado e deveras perigoso, sei que não agüentarei mais tanto tempo sem que ela tome conhecimento da minha presença.
Minha existência não chegava a ser tão entediante já que eu não me privava dos prazeres da eternidade. Nunca tive escrúpulos ou fiquei com remorso por usar meus poderes para atrair as mais belas vitimas até mim. Não, eu sempre queria mais e não só como forma de alimento, mas como troféus que se acumulam nas estantes.
Mas eu tinha algo dentro de mim, que não passava despercebido e sim apenas eu empurrava mais para o fundo, com o intuito de não atrapalhar minha diversão. Esse algo era uma corrente invisível que me aprisionava ao lugar em que, se eu fosse sensato, eu deveria estar longe. De época em época eu migrava para outros lugares. Na verdade, eu andava a esmo, mais como um vampiro selvagem, vivendo como um humano quando era conveniente. Mas algo me impelia a voltar. Talvez aquela corrente invisível, atada aos meus pés e minhas mãos, que me deixava ficar com a sensação de liberdade, e quando eu menos esperava, ela me puxava de volta.
Sempre, ao voltar eu me lembrava dela, Miranda, do motivo oculto de meu desespero mudo. Era como se sua alma estivesse presa aquele lugar e me compelisse a voltar, como forma de castigo por ter feito o que fiz. Talvez ela esperasse minha redenção, como forma de libertação para ela. Talvez ela esperasse que eu voltasse a sofrer por alguém uma obsessão maior do que a que sofri antes e que fosse muito mais cega a ponto de não me deixar voltar atrás.
Eu talvez soubesse disso! Talvez fosse sadomasoquista o suficiente para agüentar e usar essa prisão mental como forma de desculpa para os meus atos. Como disse antes, eu nunca me arrependia do que havia feito ou do que estava para fazer. Mas talvez a besta que habitava dentro de mim fosse muito mais consciente do que a casca do vilão e por vezes parava para pensar. E ao fazer isso, dava a desculpa de que meus atos eram totalmente justificáveis. Mas eu jamais admitiria isso, porque ao meu ver eu nunca estava errado e eu só ouvia o lado mais maligno dessa besta que habitava dentro de mim. Nada de redenção, de arrependimento. Isso era para os fracos e eu nunca me deixava ir pelo caminho do monstro consciente.
Me olhava no espelho, pronto para por meu plano em ação, quando pensei se tudo aquilo em que eu havia pensado, era uma mera desculpa para o meu ato a seguir. Talvez fosse, e eu já não me importava mais. Só via ela na minha frente. Já não tinha mais passado, apenas um futuro que eu faria ser diferente.
Agora, ao ver minha imagem refletida eu não pensava mais no que poderia dar errado e sim no que me fez tomar essa atitude, o que a tornara o objeto de meus mais profundos e irrefutáveis desejos. Eu raramente ia até New Haven, e quando o fazia ia apenas à noite, horário seguro para minha espécie, e justamente para a caça. Mas eu nunca deixava de ceder aos meus próprios caprichos. E o que é mais comum em uma vida como a minha, eu nunca exigia explicações para satisfazer os meus desejos.
Não pude deixar de entrar em reminiscências e tentar achar mais um motivo além do obvio.
***
Era uma manhã chuvosa, totalmente escura. O sol nem sequer tivera a capacidade de mostrar sua luz. Não que eu me desse bem com ele. Estava observando esse dia da janela de meu quarto, totalmente entediado, como se não tivesse tido a noite que tive. Nada me prendia aquela paisagem, verde, um pouco mal cuidada, que se estendia a minha frente. Voltei-me para o quarto e olhei com puro desdém para o corpo que jazia em minha cama. Daria um jeito nele logo, pois já havia me servido de forma satisfatória, porém não extasiante. Aquela visão já não fazia o mesmo efeito que fizera na noite anterior. È óbvio que fora totalmente diferente, senão ela não estaria aqui, sem vida.
Eu não era muito exigente. Bastava ser bonita e que seu sangue fosse chamativo. Sangue é sangue, nosso alimento, nossa forma de sobrevivência, nosso bônus e nosso ônus. Ou em melhores termos, nosso presente e nossa maldição. Mas para um vampiro com mais de um século, somente sangue não basta. Acabamos caindo em escolhas excêntricas, pois alem do sangue somos apaixonados pela beleza e aliado a isso, tudo fica muito mais excitante.
E ela satisfizera esses requisitos. Bonita, inocente, seu coração batendo forte, seu cheiro doce e convidativo, e sua credibilidade, facilitando demais a diversão. Mas em certas ocasiões, a fome é maior que o desejo por “adrenalina”, portanto não posso negar que ser tão atrativo e manipulativo era bem melhor.
Mas agora, já não queria mais olhar para aquele corpo, seco, sem o doce mel dos deuses. Não! Já não me servia mais. Eu estava alimentado e poderia ficar dias sem caçar, mas alguns hábitos não mudam, e os piores são os que permanecem.
Voltei a mirar o dia nublado e percebi que nunca havia tido vontade de sair à luz do dia. Como seria caçar a luz do dia? O medo que eu poderia exercer em uma menina indefesa em contraste com o que minha mente poderia fazer com a dela, sempre fora mais excitante. Nas raras vezes que precisei agir como um medíocre humano, não podia caçar. Mas hoje, um desejo por experiências novas me assolou de forma incrível, e eu nunca negava um instinto tão forte assim.
Livrei-me da forma costumeira daquele corpo inerte, que já me causava repulsa, e me vesti como um humano se vestiria nesse dia. Roupas escuras, quentes, sobretudo preto e um guarda-chuva, para que pudesse tampar o meu rosto.
Andei da forma mais rápida que pude, até que estivesse sob os olhos alheios. Então me misturei à multidão, me deixando levar, aonde quer que meus instintos quisessem me guiar aquele dia. Mal prestei atenção, exatamente aonde eu havia chegado, quando um doce aroma invadiu minhas narinas, correndo direto para o meu cérebro, e mandando mensagens ao mesmo tempo alarmantes e cegantes. Meu lado racional dizia para não seguir aquele cheiro, mas ele havia me cegado de tal maneira que eu não poderia dominar mais qualquer parte do meu corpo.
Parei, estaticamente, embaixo de uma árvore e não precisei de mais nada para saber de onde vinha. Encostei-me nela, contrariando toda e qualquer lei da natureza, abaixei o guarda-chuva tampando mais meu rosto, de forma que só eu pudesse enxergar. Ela vinha em minha direção. E mesmo sem a luz do sol, eu não sabia agora o que poderia me cegar: se a sede por seu sangue, que eu já sentia em minha boca ou por sua beleza, que mesmo na chuva, apressada, e estando um pouco desajeitada, devo dizer que apenas pela presença de muitos livros e um guarda-chuva que não estava exercendo direito sua função, ela era magnificamente bela. E eu consegui enxergar muito mais, vendo seus lindos cabelos dourados, escorrendo por suas faces, mesmo molhados pela chuva, completavam o mais belo esplendor, que poderia ofuscar as deusas. Não pude ver a cor de seus olhos, pois sua cabeça estava abaixada.
Ela chegava cada vez mais perto, e mesmo com a besta predominando minha personalidade, o lado racional foi mais forte, me fazendo apertar com força minha mandíbula e prender o ar. Mas nada mais adiantaria, seu cheiro estava gravado na minha mente. Poderia atacá-la ali mesmo, àquela hora, mas talvez o fato de estar alimentado tenha me segurado. Mas eu não me enganei, a lembrança de Miranda veio com tanta força em minha mente, que mesmo o monstro mais forte, não poderia me derrubar. Ela passou, e de tão concentrado que estava não pude ao menos olhar para trás. Parti o guarda-chuva em dois, tamanha era minha força e raiva, e joguei-o de lado, pois ele era apenas um mero adereço. Eu tinha que sair dali, antes que qualquer lembrança fosse apagada pelo monstro querendo rasgar o meu peito!
***
Aquele foi o primeiro dia que a vi, e quando não estava mais sob o olhar dos humanos, corri, de forma alucinada, chegando em pouquíssimo tempo ao meu esconderijo, por falta de palavra melhor. Andava pela casa, como um leão faminto anda em sua jaula, totalmente nervoso com as idéias desconexas, fervilhando em minha mente. Eu não conseguia tira-la de minha cabeça e a visão de seu corpo parcialmente molhado, exalando mais fortemente seu cheiro, estava me deixando louco.
Mas eu não podia chegar perto dela. Não da mesma forma como eu atraia minhas outras vitimas, pois ela não poderia ser aquilo, mais uma vitima. Não! Só uma mulher havia feito isso comigo uma vez e eu sabia muito bem o que estava passando. E depois de vê-la, a única coisa que me ligava à memória de Miranda, era a maneira como eu havia acabado com aquilo. Como a minha sede sobrepusera todo amor e desejo que eu sentia por ela. Ao vê-la hoje, tudo o que eu já senti uma vez por Miranda não era nada, comparado ao que ela estava me fazendo sentir. Seu cheiro era o néctar da mais rara flor, para uma abelha pronta a servir sua rainha. Não podia citar em metáforas ou tentar descrever. Era muito mais que isso.
Só que ao mesmo tempo, como eu conseguiria nunca mais por os olhos nela? Seria muito pior! Não poderia ser assim. E foi assim que eu decidi, que por mais que eu não pudesse me aproximar, eu estaria cuidando dela de longe, pelo menos tentando achar uma brecha nessa autopreservação, e conseguir estar com ela.
E foi o que fiz. Havia encontrado-a pela primeira vez, em Yale, Universidade famosa de New Haven. Consegui me por a par de todos os seus hábitos, vendo-a sempre de longe, e me disfarçando o melhor possível. Sabia todos os horários de suas aulas, a hora que comia, a hora que trabalhava, a hora que estudava. Tudo! Nada poderia me escapar, e enquanto eu não pudesse me aproximar, estaria cuidando dela de longe.
Passei nesse martírio, entre a razão, paixão e impulsos, por um tempo totalmente mínimo para um ser como eu, mas que não deixava de ser torturante. Então, como de hábito, logo após suas aulas, a vi saindo com duas amigas, que sempre a acompanhava, colegas de quarto que logo vim a descobrir, e ouvi ela comentando sobre uma festa. Aquilo não saiu da minha cabeça e querendo impor a mim mesmo, um senso de segurança, decidi que já era hora de me aproximar.
Mais uma vez, me disfarçaria de humano, mas dessa vez o motivo era o mais nobre. Eu tinha a aparência de um jovem de 24 anos, idade em que fui transformado, e juntando meu poder de manipulação, dinheiro e alguns documentos falsos totalmente de fáceis aquisição, me matriculei em Yale.
Minhas boas-vindas seriam aquela festa. Eu ainda não tinha certeza se ela iria, mas eu tinha que arriscar. Seria uma boa chance de me aproximar.
***
E foi exatamente assim, que eu vim parar na frente desse espelho, tentando ainda achar o motivo de tudo isso. Mas depois de lembrar de tudo, eu percebi que não precisava de nenhum motivo, e que tudo o que eu queria era estar com ela.
Mirei-me mais uma vez no espelho, pois até agora me olhava sem realmente me ver, e fiquei satisfeito em ver que eu passava muito bem por aqueles humanos medíocres.
Como forma de me entrosar melhor em meio a eles, eu havia comprado um carro, e com ele fui até a tal festa. Não preciso dizer o quanto eu adorava velocidade e cheguei ao local com o mesmo tempo, caso eu tivesse corrido.
Entrei da forma mais discreta que pude, no local indicando em um convite que eu havia pegado em minhas visitas a Yale. Não precisei exatamente adentrar a festa. Como se fosse um presente, como se fosse o destino, ela estava sentada em um banco. Ela estava tão perfeita como das outras vezes, e se possível até mais, em seu vestido cor de sangue, realçando seus lindos cachos dourados em contraste com o azul dos seus olhos. E o seu cheiro? Ah! Doce e magnífico como sempre.
Aproximei-me dela, depois que percebeu que eu a estava olhando. Ela estava hipnotizada, algo totalmente trivial quando olhavam para mim. Mas eu estava igualmente hipnotizado. Cheguei calma e cautelosamente perto dela e me apresentei.
-Boa Noite! Posso me sentar com você? – ela ainda estava emudecida, mas me sentei mesmo assim. –Penso porque uma moça tão linda como você não está lá dentro aproveitando a festa! Mas já que está aqui, se importa em fazer companhia para um novato um pouco perdido?- Abri um enorme sorriso. –Me chamo Seth! E você?
Minha existência não chegava a ser tão entediante já que eu não me privava dos prazeres da eternidade. Nunca tive escrúpulos ou fiquei com remorso por usar meus poderes para atrair as mais belas vitimas até mim. Não, eu sempre queria mais e não só como forma de alimento, mas como troféus que se acumulam nas estantes.
Mas eu tinha algo dentro de mim, que não passava despercebido e sim apenas eu empurrava mais para o fundo, com o intuito de não atrapalhar minha diversão. Esse algo era uma corrente invisível que me aprisionava ao lugar em que, se eu fosse sensato, eu deveria estar longe. De época em época eu migrava para outros lugares. Na verdade, eu andava a esmo, mais como um vampiro selvagem, vivendo como um humano quando era conveniente. Mas algo me impelia a voltar. Talvez aquela corrente invisível, atada aos meus pés e minhas mãos, que me deixava ficar com a sensação de liberdade, e quando eu menos esperava, ela me puxava de volta.
Sempre, ao voltar eu me lembrava dela, Miranda, do motivo oculto de meu desespero mudo. Era como se sua alma estivesse presa aquele lugar e me compelisse a voltar, como forma de castigo por ter feito o que fiz. Talvez ela esperasse minha redenção, como forma de libertação para ela. Talvez ela esperasse que eu voltasse a sofrer por alguém uma obsessão maior do que a que sofri antes e que fosse muito mais cega a ponto de não me deixar voltar atrás.
Eu talvez soubesse disso! Talvez fosse sadomasoquista o suficiente para agüentar e usar essa prisão mental como forma de desculpa para os meus atos. Como disse antes, eu nunca me arrependia do que havia feito ou do que estava para fazer. Mas talvez a besta que habitava dentro de mim fosse muito mais consciente do que a casca do vilão e por vezes parava para pensar. E ao fazer isso, dava a desculpa de que meus atos eram totalmente justificáveis. Mas eu jamais admitiria isso, porque ao meu ver eu nunca estava errado e eu só ouvia o lado mais maligno dessa besta que habitava dentro de mim. Nada de redenção, de arrependimento. Isso era para os fracos e eu nunca me deixava ir pelo caminho do monstro consciente.
Me olhava no espelho, pronto para por meu plano em ação, quando pensei se tudo aquilo em que eu havia pensado, era uma mera desculpa para o meu ato a seguir. Talvez fosse, e eu já não me importava mais. Só via ela na minha frente. Já não tinha mais passado, apenas um futuro que eu faria ser diferente.
Agora, ao ver minha imagem refletida eu não pensava mais no que poderia dar errado e sim no que me fez tomar essa atitude, o que a tornara o objeto de meus mais profundos e irrefutáveis desejos. Eu raramente ia até New Haven, e quando o fazia ia apenas à noite, horário seguro para minha espécie, e justamente para a caça. Mas eu nunca deixava de ceder aos meus próprios caprichos. E o que é mais comum em uma vida como a minha, eu nunca exigia explicações para satisfazer os meus desejos.
Não pude deixar de entrar em reminiscências e tentar achar mais um motivo além do obvio.
Era uma manhã chuvosa, totalmente escura. O sol nem sequer tivera a capacidade de mostrar sua luz. Não que eu me desse bem com ele. Estava observando esse dia da janela de meu quarto, totalmente entediado, como se não tivesse tido a noite que tive. Nada me prendia aquela paisagem, verde, um pouco mal cuidada, que se estendia a minha frente. Voltei-me para o quarto e olhei com puro desdém para o corpo que jazia em minha cama. Daria um jeito nele logo, pois já havia me servido de forma satisfatória, porém não extasiante. Aquela visão já não fazia o mesmo efeito que fizera na noite anterior. È óbvio que fora totalmente diferente, senão ela não estaria aqui, sem vida.
Eu não era muito exigente. Bastava ser bonita e que seu sangue fosse chamativo. Sangue é sangue, nosso alimento, nossa forma de sobrevivência, nosso bônus e nosso ônus. Ou em melhores termos, nosso presente e nossa maldição. Mas para um vampiro com mais de um século, somente sangue não basta. Acabamos caindo em escolhas excêntricas, pois alem do sangue somos apaixonados pela beleza e aliado a isso, tudo fica muito mais excitante.
E ela satisfizera esses requisitos. Bonita, inocente, seu coração batendo forte, seu cheiro doce e convidativo, e sua credibilidade, facilitando demais a diversão. Mas em certas ocasiões, a fome é maior que o desejo por “adrenalina”, portanto não posso negar que ser tão atrativo e manipulativo era bem melhor.
Mas agora, já não queria mais olhar para aquele corpo, seco, sem o doce mel dos deuses. Não! Já não me servia mais. Eu estava alimentado e poderia ficar dias sem caçar, mas alguns hábitos não mudam, e os piores são os que permanecem.
Voltei a mirar o dia nublado e percebi que nunca havia tido vontade de sair à luz do dia. Como seria caçar a luz do dia? O medo que eu poderia exercer em uma menina indefesa em contraste com o que minha mente poderia fazer com a dela, sempre fora mais excitante. Nas raras vezes que precisei agir como um medíocre humano, não podia caçar. Mas hoje, um desejo por experiências novas me assolou de forma incrível, e eu nunca negava um instinto tão forte assim.
Livrei-me da forma costumeira daquele corpo inerte, que já me causava repulsa, e me vesti como um humano se vestiria nesse dia. Roupas escuras, quentes, sobretudo preto e um guarda-chuva, para que pudesse tampar o meu rosto.
Andei da forma mais rápida que pude, até que estivesse sob os olhos alheios. Então me misturei à multidão, me deixando levar, aonde quer que meus instintos quisessem me guiar aquele dia. Mal prestei atenção, exatamente aonde eu havia chegado, quando um doce aroma invadiu minhas narinas, correndo direto para o meu cérebro, e mandando mensagens ao mesmo tempo alarmantes e cegantes. Meu lado racional dizia para não seguir aquele cheiro, mas ele havia me cegado de tal maneira que eu não poderia dominar mais qualquer parte do meu corpo.
Parei, estaticamente, embaixo de uma árvore e não precisei de mais nada para saber de onde vinha. Encostei-me nela, contrariando toda e qualquer lei da natureza, abaixei o guarda-chuva tampando mais meu rosto, de forma que só eu pudesse enxergar. Ela vinha em minha direção. E mesmo sem a luz do sol, eu não sabia agora o que poderia me cegar: se a sede por seu sangue, que eu já sentia em minha boca ou por sua beleza, que mesmo na chuva, apressada, e estando um pouco desajeitada, devo dizer que apenas pela presença de muitos livros e um guarda-chuva que não estava exercendo direito sua função, ela era magnificamente bela. E eu consegui enxergar muito mais, vendo seus lindos cabelos dourados, escorrendo por suas faces, mesmo molhados pela chuva, completavam o mais belo esplendor, que poderia ofuscar as deusas. Não pude ver a cor de seus olhos, pois sua cabeça estava abaixada.
Ela chegava cada vez mais perto, e mesmo com a besta predominando minha personalidade, o lado racional foi mais forte, me fazendo apertar com força minha mandíbula e prender o ar. Mas nada mais adiantaria, seu cheiro estava gravado na minha mente. Poderia atacá-la ali mesmo, àquela hora, mas talvez o fato de estar alimentado tenha me segurado. Mas eu não me enganei, a lembrança de Miranda veio com tanta força em minha mente, que mesmo o monstro mais forte, não poderia me derrubar. Ela passou, e de tão concentrado que estava não pude ao menos olhar para trás. Parti o guarda-chuva em dois, tamanha era minha força e raiva, e joguei-o de lado, pois ele era apenas um mero adereço. Eu tinha que sair dali, antes que qualquer lembrança fosse apagada pelo monstro querendo rasgar o meu peito!
Aquele foi o primeiro dia que a vi, e quando não estava mais sob o olhar dos humanos, corri, de forma alucinada, chegando em pouquíssimo tempo ao meu esconderijo, por falta de palavra melhor. Andava pela casa, como um leão faminto anda em sua jaula, totalmente nervoso com as idéias desconexas, fervilhando em minha mente. Eu não conseguia tira-la de minha cabeça e a visão de seu corpo parcialmente molhado, exalando mais fortemente seu cheiro, estava me deixando louco.
Mas eu não podia chegar perto dela. Não da mesma forma como eu atraia minhas outras vitimas, pois ela não poderia ser aquilo, mais uma vitima. Não! Só uma mulher havia feito isso comigo uma vez e eu sabia muito bem o que estava passando. E depois de vê-la, a única coisa que me ligava à memória de Miranda, era a maneira como eu havia acabado com aquilo. Como a minha sede sobrepusera todo amor e desejo que eu sentia por ela. Ao vê-la hoje, tudo o que eu já senti uma vez por Miranda não era nada, comparado ao que ela estava me fazendo sentir. Seu cheiro era o néctar da mais rara flor, para uma abelha pronta a servir sua rainha. Não podia citar em metáforas ou tentar descrever. Era muito mais que isso.
Só que ao mesmo tempo, como eu conseguiria nunca mais por os olhos nela? Seria muito pior! Não poderia ser assim. E foi assim que eu decidi, que por mais que eu não pudesse me aproximar, eu estaria cuidando dela de longe, pelo menos tentando achar uma brecha nessa autopreservação, e conseguir estar com ela.
E foi o que fiz. Havia encontrado-a pela primeira vez, em Yale, Universidade famosa de New Haven. Consegui me por a par de todos os seus hábitos, vendo-a sempre de longe, e me disfarçando o melhor possível. Sabia todos os horários de suas aulas, a hora que comia, a hora que trabalhava, a hora que estudava. Tudo! Nada poderia me escapar, e enquanto eu não pudesse me aproximar, estaria cuidando dela de longe.
Passei nesse martírio, entre a razão, paixão e impulsos, por um tempo totalmente mínimo para um ser como eu, mas que não deixava de ser torturante. Então, como de hábito, logo após suas aulas, a vi saindo com duas amigas, que sempre a acompanhava, colegas de quarto que logo vim a descobrir, e ouvi ela comentando sobre uma festa. Aquilo não saiu da minha cabeça e querendo impor a mim mesmo, um senso de segurança, decidi que já era hora de me aproximar.
Mais uma vez, me disfarçaria de humano, mas dessa vez o motivo era o mais nobre. Eu tinha a aparência de um jovem de 24 anos, idade em que fui transformado, e juntando meu poder de manipulação, dinheiro e alguns documentos falsos totalmente de fáceis aquisição, me matriculei em Yale.
Minhas boas-vindas seriam aquela festa. Eu ainda não tinha certeza se ela iria, mas eu tinha que arriscar. Seria uma boa chance de me aproximar.
E foi exatamente assim, que eu vim parar na frente desse espelho, tentando ainda achar o motivo de tudo isso. Mas depois de lembrar de tudo, eu percebi que não precisava de nenhum motivo, e que tudo o que eu queria era estar com ela.
Mirei-me mais uma vez no espelho, pois até agora me olhava sem realmente me ver, e fiquei satisfeito em ver que eu passava muito bem por aqueles humanos medíocres.
Como forma de me entrosar melhor em meio a eles, eu havia comprado um carro, e com ele fui até a tal festa. Não preciso dizer o quanto eu adorava velocidade e cheguei ao local com o mesmo tempo, caso eu tivesse corrido.
Entrei da forma mais discreta que pude, no local indicando em um convite que eu havia pegado em minhas visitas a Yale. Não precisei exatamente adentrar a festa. Como se fosse um presente, como se fosse o destino, ela estava sentada em um banco. Ela estava tão perfeita como das outras vezes, e se possível até mais, em seu vestido cor de sangue, realçando seus lindos cachos dourados em contraste com o azul dos seus olhos. E o seu cheiro? Ah! Doce e magnífico como sempre.
Aproximei-me dela, depois que percebeu que eu a estava olhando. Ela estava hipnotizada, algo totalmente trivial quando olhavam para mim. Mas eu estava igualmente hipnotizado. Cheguei calma e cautelosamente perto dela e me apresentei.
-Boa Noite! Posso me sentar com você? – ela ainda estava emudecida, mas me sentei mesmo assim. –Penso porque uma moça tão linda como você não está lá dentro aproveitando a festa! Mas já que está aqui, se importa em fazer companhia para um novato um pouco perdido?- Abri um enorme sorriso. –Me chamo Seth! E você?




0 comentários:
Postar um comentário