Eu não podia acreditar naquele ser deslumbrante que estava à minha frente. Parecia um anjo perdido, que estava agora aqui na terra e se aproximava de mim com cautela. Não conseguia tirar os olhos daquela criatura tão exuberante. Meu coração disparou, será que ele estava mesmo vindo em minha direção? Será que eu estava sonhando? O sangue corria feito louco pelas minhas veias e sem sombra de dúvidas meu rosto estava vermelho quando ele sentou ao meu lado. Eu nunca havia visto nada tão esplendoroso. Eu ouvia o que ele falava, absorvendo aquela voz que parecia uma melodia, mas parecia que minha garganta havia se esquecido de como se produzia à fala. Respirei fundo tentando recuperar o autocontrole antes de voltar a falar.
_ Per-Perséphone – meu coração ainda não havia se acalmado e agir feito uma idiota não iria fazer minha situação melhorar. – Mas todos me chamam de Perse – completei, eu odiava o meu nome e a obsessão que minha mãe tinha por história, graças a isso eu tinha o nome de uma deusa grega idiota. Eu senti uma necessidade enorme de tocar alguma parte dele para me certificar que esse rapaz sentado ao meu lado era real mesmo, no entanto me contive. – Eu vim para essa festa com minhas amigas, mas acabei me perdendo delas. – tentei justificar o fato de estar sozinha aqui fora. Agradecia o fato de não estar frio. O verão era a minha época preferida do ano. – Então você é novo aqui? Você estudava em outra universidade antes?
Nunca havia sentido uma atração tão grande assim por alguém, e não era algo meramente físico. Me sentia impelida a saber mais sobre Seth. Eu não acreditava em amor à primeira vista, mas sentada aqui com ele e olhando aqueles olhos de cor tão incomum era como se estivesse sonhando. Ele era o tipo de cara que ia atrás da Susanah ou da Jullie e não de mim. Mas ele era novo em Yale pelo que dizia. Provavelmente não tinha tido oportunidade melhor. Eu sorria enquanto falava, tentando parecer mais uma garota descolada e menos... Eu!
_ Eu vim transferido de Dartmouth. – ele respondeu de um modo simples. E eu desejava que ele falasse mais, queria ouvir aquela voz. – Yale sempre foi meu sonho. – Ele tinha uma animação contida que o fazia parecer mais velho aos meus olhos. Não parecia ser como os outros garotos (poucos é verdade) que eu conhecia, sempre imaturos e fazendo brincadeiras e comentários impróprios nas piores horas, isso com certeza me chamou a atenção. Eu duvidava muito que ele teria se aproximado se eu estivesse como estava sempre, cabelo solto, roupas confortáveis e praticamente nenhuma maquiagem, normalmente eu não parecia ser tão glamurosa assim. Nunca nenhum homem havia me chamado atenção como ele. Eu geralmente estava preocupada demais com os estudos para olhar qualquer coisa à minha volta. Mesmo alguém tão maravilhoso quanto ele, afinal quando se está olhando para um livro não se vê muito coisa ao redor, pelo menos eu não vejo.
_ Yale é o sonho de muita gente... – falei timidamente tentando manter uma conversa e não parecer tão deslumbrada assim diante dele. – O meu também – sorri. Agora seria a hora em que eu começaria a falar incansavelmente sobre como eu gostava da universidade e do meu curso de medicina e do quanto queria poder ajudar as pessoas, mas... Eu só conseguia olhar para ele. Me sentia uma completa idiota e tinha vontade de sair correndo e não pagar nenhum mico, ou melhor, eu não podia sair correndo quando o que eu mais queria era olhar para aquele rosto angelical. Então falei a coisa mais idiota que poderia ser dita – Então se você é novo o que acha de entrarmos e você se enturmar um pouco? – É... Eu provavelmente iria perder aquela perfeição para a primeira gostosona que aparecesse na nossa frente...
Entramos e como era de se esperar todas as atenções femininas se voltaram para o novo aluno. Os olhares nos acompanhavam e algumas olhavam para mim de cima à baixo como se eu fosse indigna de tal companhia. Nenhuma delas, no entanto ousou se aproximar, era como se uma aura as mantivesse longe. Eu o olhei por um segundo, o que será que ele estava achando? Não havia como notar o quanto ele chamava atenção de todas, ele não pareceu se incomodar. Era como se não houvesse nada demais nessa atenção toda. Passamos pelo corredor até chegar no hall maior. Minhas amigas estavam lá, ambas acompanhadas e percebi os olhares que me lançaram quando me viram com aquele homem. Dei um sorrisinho discreto e me aproximei delas. Pelo menos os rapazes que estavam com elas hoje eu conhecia.
_ Olá meninas! – parei na rodinha – Esse é o Seth... – falei animada – ele é novo aqui. E esses são meus amigos Jullie, Mark, Susie e Anthony. – apontei cada um deles enquanto falava.
A noite estava sendo bem mais agradável do que eu tinha imaginado possível. Quando em um milhão de anos eu ia me imaginar conversando com alguém como ele? E ele se adaptou tão facilmente a conversa, eu me mantinha quieta a maior parte do tempo fazendo algum comentário vez ou outra. A musica estava um pouco alta demais para o que eu estava acostumada, mesmo assim eu me sentia totalmente bem nessa situação, mais até do que eu achei possível, mantinha uma postura séria enquanto ouvia tudo. Estava com os braços cruzados, levantei a mão e enrolei a ponta do rabo de cavalo no dedo, num gesto totalmente casual quando o percebi olhando cada movimento que eu fazia. Meus lábios se curvaram num sorriso, abaixei a cabeça para desviar daqueles olhos de uma cor tão diferente, era difícil sustentar o olhar e o mais estranho é que eu nunca havia me sentido assim, acho que intimidada era a palavra que se encaixava melhor na situação. Mas não de um modo ruim, eu só não sabia como agir e isso me deixava confusa, eu sempre sabia o que fazer, sempre sabia que decisões tomar. Eu sempre era racional demais e estar numa situação totalmente inesperada me deixava um pouco receosa.
_ O que acha de beber alguma coisa? – ele me perguntou aproximando-se um pouco mais do meu ouvido. Senti um arrepio descer pela minha coluna. Eu não falei só aceitei com um meneio de cabeça. Tive medo que minha voz pudesse falhar e me entregar. Como ele conseguia isso? Me fazer sentir desse jeito? Meu coração disparou e não sabia o que fazer com minhas mãos, elas pareciam tão desajeitadas agora!
Saímos de perto das meninas, eu não virei para encará-las, mas eu sabia exatamente o tipo de olhar que elas me lançavam, cheio de malícia e alegria por me ver finalmente com alguém. Não que eu estivesse com alguém, mas pelo modo como elas me olhavam o tempo todo elas pareciam achar que nós tínhamos alguma coisa. Provavelmente elas me encheriam de perguntas antes que tivéssemos a chance de dormir e não descansariam antes de obter todas as respostas. Quando saímos da vista delas me vi num salão, a música agora era suave e lenta. Não chegamos nem perto da mesa de bebidas. Ele pareceu achar alguma coisa bem mais interessante para fazer, eu percebi quando me segurou delicadamente e me enlaçou pela cintura. Não preciso dizer que fiquei totalmente estática. Meu coração parecia que ia sair do peito tamanha a velocidade dos batimentos. Finalmente levantei os olhos e os encarei.
_ O que estamos fazendo? – perguntei quando finalmente consegui colocar os pensamentos em ordem, o coração teimava em não me obedecer e eu tinha certeza que ele batia tão alto que mesmo com a música Seth podia ouvi-lo. Ele sorriu, havia algo diferente naquele sorriso, uma certa malícia talvez? Aquilo devia ser totalmente proibido, prendi a respiração por um instante.
_ Pensei que gostaria de dançar um pouco – ele falou num tom totalmente casual. O que não parecia nada justo, como ele podia me deixar daquele jeito e não se abalar nenhum pouquinho? Senti que estava balançando com o toque da música. Quando é que meus braços haviam parado no pescoço dele daquela maneira? Eu havia esquecido de bebida e todo o resto. Principalmente quando olhei para ele e o vi se aproximando, eu tinha certeza que ele ia me beijar, pelo menos eu queria muito isso. Cheguei até a fechar os olhos instintivamente. Ia ser a qualquer segundo! Claro que era bom demais para ser verdade. Eu senti minhas pernas tremerem por antecipação, mas a frustração chegou mais rápido do que eu imaginei. Não houve beijo. Ele simplesmente se aproximou e falou-me no mais perto do ouvido para se sobrepor à música – E que curso você faz aqui? – É... Acho que ele só queria conversar. Claro que esse simples gesto conseguiu me desestruturar novamente e outra vez eu estava me contendo para não suspirar. Evitava encará-lo nos olhos, mas quando o fazia me parecia que ele estava se divertindo com a situação. Ele não podia saber o que eu estava sentindo ou pensando podia? Oras... Claro que não! Isso era totalmente impossível.
_ Medicina – falei quando recuperei uma ínfima parte do meu autocontrole – sexto período. – Eu conseguia responder algumas perguntas, mas formular outras parecia uma tarefa impossível agora. Ainda mais estando tão perto e o cheiro dele me embriagando, me entorpecendo como uma droga. Ficamos assim a maior parte da noite. Ele não parecia muito inclinado a me dar o que eu tanto queria, havia horas em que percebia o desejo me sondando, mas ele foi um perfeito cavalheiro a noite toda. Umas poucas vezes eu percebi como as outras pessoas nos olhavam e pela primeira vez na vida não estava nem aí para isso. Minha atenção estava totalmente voltada para ele e pela espera do momento que ele fosse me agarrar e me... Ok Ok. Eu precisava manter a mente focada em coisas mais... Ou menos... Eu já estava confusa.
Num tempo que me pareceu curto demais olhei no relógio e já estava na hora de ir para casa. Eu sabia que Jullie e Susie não estariam me esperando, ainda mais depois dos olhares que elas haviam me lançado horas antes. Elas deveriam estar aproveitando a noite também e não podia culpá-las por isso. Eu sentia novamente minhas pernas doerem devido ao tempo que estava de pé. Nunca havia me divertido tanto e me doía pensar que a noite precisava acabar.
_ Está tarde – falei um pouco a contragosto – Preciso ir. – tentei não demonstrar o quanto isso me incomodava.
E ele era um verdadeiro cavalheiro, senti meu ego inflar um pouco quando ele se ofereceu para me acompanhar. Lhe falei que morava no outro dormitório, acabamos andando até lá. Em alguns momentos eu levantei o rosto e sorri. Minha noite de contos de fadas estava chegando ao final. A carruagem estava prestes a virar abóbora e eu não tinha nenhum sapatinho de cristal para perder. O que queria dizer que não se sabia se o príncipe encantado teria um motivo para voltar depois. Parei quando chegamos à porta do prédio. Todos deviam estar dormindo – “ou não!” – Pensei maliciosamente. Peguei a chave na bolsa tentando ser o mais breve possível. Não queria deixá-lo ali, havia esfriado um pouco e as mãos dele já estavam bem frias. Coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Antes de entrar me virei e o encarei uma última vez.
_ Obrigada pela noite ótima! – falei com sinceridade. – Durma bem. – me aproximei e depositei um beijo um pouco desajeitado na face dele. Senti o coração novamente dar seus sinais quando toquei a pele gelada dele mais uma vez. Ele não deu sinais de que faria alguma coisa a mais, então entrei e fui para o quarto evitando olhar novamente para trás, para a porta já fechada. Corri para a janela para tentar vê-lo se afastar, mas não havia mais ninguém lá embaixo. Senti a frustração tomar conta de mim. Eu definitivamente deveria ter feito alguma coisa. Poderia tê-lo convidado para entrar, poderia ter tentado prolongar mais à noite. No entanto eu tinha que admitir que estava muito mais cansada do que havia pensado antes, era como acontecia com as garotas bem antigamente, nada de amassos no final da noite. Só uma despedida singela. As meninas não estavam no quarto. Tomei um banho rápido para tirar aquela maquiagem e lavei os cabelos. Cai na cama e apaguei.
***
Acordei no outro dia com a luz fraca entrando pela janela que eu havia deixado aberta e batendo diretamente no meu rosto. Já eram quase dez da manhã. Não havia sol, o céu estava nublado novamente. Eu só esperava que não acabasse chovendo.
Fechei a cortina bastante contrariada com o sono interrompido. O quarto escureceu um pouco. Voltei a deitar, mas o sono não me embalou nos seus braços. Olhei para o lado, minhas amigas estavam dormindo, um sono pesado. Não havia muito que eu pudesse fazer ali, não conseguiria voltar a dormir, mesmo que estivesse quebrada da noite anterior. Fui ao banheiro e cuidei da minha higiene matinal. Poderia ir até a cantina comer alguma coisa e depois passar na biblioteca. Havia uns livros que eu precisava devolver e essa parecia ser a oportunidade perfeita para isso. Quando acordei de vez não consegui conter meus pensamentos e eles se voltaram para Seth outra vez. Eu podia me perguntar se tudo não havia sido a criação da minha mente se eu não tivesse uma lembrança tão clara dele. Ele parecia perfeito demais para ser real. E eu havia ficado com ele a noite toda. Não exatamente do jeito que queria, não posso dizer que esses pensamentos não me surpreendiam, nunca pensava “nessas” coisas. E eu estava totalmente frustrada por que não havia tido coragem de dar um amasso com o cara mais incrível que já havia cruzado o meu caminho. Pelo menos isso eu conseguia reconhecer em mim, nunca tinha tido peito suficiente para ter uma atitude assim. Para tomar a frente das coisas. Uma palavra perfeita para essa definir minha situação era: C.O.V.A.R.D.E!
Não dava para evitar que o arrependimento me corroesse, mas eu precisava colocar isso de lado. Eu havia tido a minha chance e agora não adiantava mais chorar o leite derramado. Terminei de me arrumar e sai. Eu estava totalmente diferente, muito mais simples. Essa sim era eu: cabelos soltos, meus cachos normalmente eram rebeldes demais para o meu gosto, o mínimo de maquiagem: gloss, rímel incolor e um lápis marrom nos olhos. Calça jeans e uma blusinha regata básica. Num clima de verão como esse mesmo quando o sol resolvia sumir não precisava de muito mais roupa que isso. Olhei meu reflexo no espelho mais uma vez e saí com os livros num braço e a bolsa em outro tentando fazer o menor barulho possível. Quando finalmente sai do dormitório eu não sabia exatamente o que fazer primeiro. Eu definitivamente não estava acostumada a não ter nada para fazer. Sempre havia algo que estudar, um trabalho para fazer e mesmo nos finais de semana os estudos me mantinham ocupada. Hoje tudo o que eu queria era ter a chance de encontrar aquele anjo novamente. Hoje, com a luz do dia as minhas inseguranças insistiam em me bombardear. Será que ele não tinha gostado de mim? Esse devia ser o motivo para ele ter ido embora daquele jeito. Ou será que ele era gay? NÃO! Essa possibilidade deveria ser descartada... Era uma blasfêmia uma criatura como aquela ser gay! Eu é que não devia fazer o tipo dele e afinal eu não sabia quase nada sobre encontros e aquilo não havia sido um encontro. Nós tínhamos acabado de nos conhecer e por mais que a noite tivesse sido ótima (nada de segundas intenções aí) havia sido a mais inocente de todas. Nós havíamos dançado, conversado e ele nunca passou dos limites.
Quando dei por mim estava na frente da biblioteca já. Eu conhecia aquele caminho tão bem que mesmo com a cabeça funcionando a mil por hora meus pés sabia exatamente aonde ir. Entrei tentando deixar todos os pensamentos de lado. Pelo menos eu conseguia deixar os problemas de lado quando estava rodeada por livros. Era o meu lado nerd falando mais alto! Acabei ficando umas duas horas na biblioteca e só quando meu estômago começou a roncar eu saí. Era hora de tentar curtir as férias que estavam aí, sem livros, sem estudos, só diversão e curtição. Mas essas palavras não combinavam muito comigo. Eu andava olhando para baixo, não havia me dado conta até ouvir aquela voz que não estava mais pensando tanto assim nele. Só que agora ele estava perto, o vi quando levantei os olhos, e estava vindo na minha direção chamando meu nome e sorrindo daquele jeito que me fazia esquecer de não suspirar.
_ Oi! – tentei falar casualmente. – Tudo bem? – pelo menos ele ainda lembrava do meu nome!
_ Per-Perséphone – meu coração ainda não havia se acalmado e agir feito uma idiota não iria fazer minha situação melhorar. – Mas todos me chamam de Perse – completei, eu odiava o meu nome e a obsessão que minha mãe tinha por história, graças a isso eu tinha o nome de uma deusa grega idiota. Eu senti uma necessidade enorme de tocar alguma parte dele para me certificar que esse rapaz sentado ao meu lado era real mesmo, no entanto me contive. – Eu vim para essa festa com minhas amigas, mas acabei me perdendo delas. – tentei justificar o fato de estar sozinha aqui fora. Agradecia o fato de não estar frio. O verão era a minha época preferida do ano. – Então você é novo aqui? Você estudava em outra universidade antes?
Nunca havia sentido uma atração tão grande assim por alguém, e não era algo meramente físico. Me sentia impelida a saber mais sobre Seth. Eu não acreditava em amor à primeira vista, mas sentada aqui com ele e olhando aqueles olhos de cor tão incomum era como se estivesse sonhando. Ele era o tipo de cara que ia atrás da Susanah ou da Jullie e não de mim. Mas ele era novo em Yale pelo que dizia. Provavelmente não tinha tido oportunidade melhor. Eu sorria enquanto falava, tentando parecer mais uma garota descolada e menos... Eu!
_ Eu vim transferido de Dartmouth. – ele respondeu de um modo simples. E eu desejava que ele falasse mais, queria ouvir aquela voz. – Yale sempre foi meu sonho. – Ele tinha uma animação contida que o fazia parecer mais velho aos meus olhos. Não parecia ser como os outros garotos (poucos é verdade) que eu conhecia, sempre imaturos e fazendo brincadeiras e comentários impróprios nas piores horas, isso com certeza me chamou a atenção. Eu duvidava muito que ele teria se aproximado se eu estivesse como estava sempre, cabelo solto, roupas confortáveis e praticamente nenhuma maquiagem, normalmente eu não parecia ser tão glamurosa assim. Nunca nenhum homem havia me chamado atenção como ele. Eu geralmente estava preocupada demais com os estudos para olhar qualquer coisa à minha volta. Mesmo alguém tão maravilhoso quanto ele, afinal quando se está olhando para um livro não se vê muito coisa ao redor, pelo menos eu não vejo.
_ Yale é o sonho de muita gente... – falei timidamente tentando manter uma conversa e não parecer tão deslumbrada assim diante dele. – O meu também – sorri. Agora seria a hora em que eu começaria a falar incansavelmente sobre como eu gostava da universidade e do meu curso de medicina e do quanto queria poder ajudar as pessoas, mas... Eu só conseguia olhar para ele. Me sentia uma completa idiota e tinha vontade de sair correndo e não pagar nenhum mico, ou melhor, eu não podia sair correndo quando o que eu mais queria era olhar para aquele rosto angelical. Então falei a coisa mais idiota que poderia ser dita – Então se você é novo o que acha de entrarmos e você se enturmar um pouco? – É... Eu provavelmente iria perder aquela perfeição para a primeira gostosona que aparecesse na nossa frente...
Entramos e como era de se esperar todas as atenções femininas se voltaram para o novo aluno. Os olhares nos acompanhavam e algumas olhavam para mim de cima à baixo como se eu fosse indigna de tal companhia. Nenhuma delas, no entanto ousou se aproximar, era como se uma aura as mantivesse longe. Eu o olhei por um segundo, o que será que ele estava achando? Não havia como notar o quanto ele chamava atenção de todas, ele não pareceu se incomodar. Era como se não houvesse nada demais nessa atenção toda. Passamos pelo corredor até chegar no hall maior. Minhas amigas estavam lá, ambas acompanhadas e percebi os olhares que me lançaram quando me viram com aquele homem. Dei um sorrisinho discreto e me aproximei delas. Pelo menos os rapazes que estavam com elas hoje eu conhecia.
_ Olá meninas! – parei na rodinha – Esse é o Seth... – falei animada – ele é novo aqui. E esses são meus amigos Jullie, Mark, Susie e Anthony. – apontei cada um deles enquanto falava.
A noite estava sendo bem mais agradável do que eu tinha imaginado possível. Quando em um milhão de anos eu ia me imaginar conversando com alguém como ele? E ele se adaptou tão facilmente a conversa, eu me mantinha quieta a maior parte do tempo fazendo algum comentário vez ou outra. A musica estava um pouco alta demais para o que eu estava acostumada, mesmo assim eu me sentia totalmente bem nessa situação, mais até do que eu achei possível, mantinha uma postura séria enquanto ouvia tudo. Estava com os braços cruzados, levantei a mão e enrolei a ponta do rabo de cavalo no dedo, num gesto totalmente casual quando o percebi olhando cada movimento que eu fazia. Meus lábios se curvaram num sorriso, abaixei a cabeça para desviar daqueles olhos de uma cor tão diferente, era difícil sustentar o olhar e o mais estranho é que eu nunca havia me sentido assim, acho que intimidada era a palavra que se encaixava melhor na situação. Mas não de um modo ruim, eu só não sabia como agir e isso me deixava confusa, eu sempre sabia o que fazer, sempre sabia que decisões tomar. Eu sempre era racional demais e estar numa situação totalmente inesperada me deixava um pouco receosa.
_ O que acha de beber alguma coisa? – ele me perguntou aproximando-se um pouco mais do meu ouvido. Senti um arrepio descer pela minha coluna. Eu não falei só aceitei com um meneio de cabeça. Tive medo que minha voz pudesse falhar e me entregar. Como ele conseguia isso? Me fazer sentir desse jeito? Meu coração disparou e não sabia o que fazer com minhas mãos, elas pareciam tão desajeitadas agora!
Saímos de perto das meninas, eu não virei para encará-las, mas eu sabia exatamente o tipo de olhar que elas me lançavam, cheio de malícia e alegria por me ver finalmente com alguém. Não que eu estivesse com alguém, mas pelo modo como elas me olhavam o tempo todo elas pareciam achar que nós tínhamos alguma coisa. Provavelmente elas me encheriam de perguntas antes que tivéssemos a chance de dormir e não descansariam antes de obter todas as respostas. Quando saímos da vista delas me vi num salão, a música agora era suave e lenta. Não chegamos nem perto da mesa de bebidas. Ele pareceu achar alguma coisa bem mais interessante para fazer, eu percebi quando me segurou delicadamente e me enlaçou pela cintura. Não preciso dizer que fiquei totalmente estática. Meu coração parecia que ia sair do peito tamanha a velocidade dos batimentos. Finalmente levantei os olhos e os encarei.
_ O que estamos fazendo? – perguntei quando finalmente consegui colocar os pensamentos em ordem, o coração teimava em não me obedecer e eu tinha certeza que ele batia tão alto que mesmo com a música Seth podia ouvi-lo. Ele sorriu, havia algo diferente naquele sorriso, uma certa malícia talvez? Aquilo devia ser totalmente proibido, prendi a respiração por um instante.
_ Pensei que gostaria de dançar um pouco – ele falou num tom totalmente casual. O que não parecia nada justo, como ele podia me deixar daquele jeito e não se abalar nenhum pouquinho? Senti que estava balançando com o toque da música. Quando é que meus braços haviam parado no pescoço dele daquela maneira? Eu havia esquecido de bebida e todo o resto. Principalmente quando olhei para ele e o vi se aproximando, eu tinha certeza que ele ia me beijar, pelo menos eu queria muito isso. Cheguei até a fechar os olhos instintivamente. Ia ser a qualquer segundo! Claro que era bom demais para ser verdade. Eu senti minhas pernas tremerem por antecipação, mas a frustração chegou mais rápido do que eu imaginei. Não houve beijo. Ele simplesmente se aproximou e falou-me no mais perto do ouvido para se sobrepor à música – E que curso você faz aqui? – É... Acho que ele só queria conversar. Claro que esse simples gesto conseguiu me desestruturar novamente e outra vez eu estava me contendo para não suspirar. Evitava encará-lo nos olhos, mas quando o fazia me parecia que ele estava se divertindo com a situação. Ele não podia saber o que eu estava sentindo ou pensando podia? Oras... Claro que não! Isso era totalmente impossível.
_ Medicina – falei quando recuperei uma ínfima parte do meu autocontrole – sexto período. – Eu conseguia responder algumas perguntas, mas formular outras parecia uma tarefa impossível agora. Ainda mais estando tão perto e o cheiro dele me embriagando, me entorpecendo como uma droga. Ficamos assim a maior parte da noite. Ele não parecia muito inclinado a me dar o que eu tanto queria, havia horas em que percebia o desejo me sondando, mas ele foi um perfeito cavalheiro a noite toda. Umas poucas vezes eu percebi como as outras pessoas nos olhavam e pela primeira vez na vida não estava nem aí para isso. Minha atenção estava totalmente voltada para ele e pela espera do momento que ele fosse me agarrar e me... Ok Ok. Eu precisava manter a mente focada em coisas mais... Ou menos... Eu já estava confusa.
Num tempo que me pareceu curto demais olhei no relógio e já estava na hora de ir para casa. Eu sabia que Jullie e Susie não estariam me esperando, ainda mais depois dos olhares que elas haviam me lançado horas antes. Elas deveriam estar aproveitando a noite também e não podia culpá-las por isso. Eu sentia novamente minhas pernas doerem devido ao tempo que estava de pé. Nunca havia me divertido tanto e me doía pensar que a noite precisava acabar.
_ Está tarde – falei um pouco a contragosto – Preciso ir. – tentei não demonstrar o quanto isso me incomodava.
E ele era um verdadeiro cavalheiro, senti meu ego inflar um pouco quando ele se ofereceu para me acompanhar. Lhe falei que morava no outro dormitório, acabamos andando até lá. Em alguns momentos eu levantei o rosto e sorri. Minha noite de contos de fadas estava chegando ao final. A carruagem estava prestes a virar abóbora e eu não tinha nenhum sapatinho de cristal para perder. O que queria dizer que não se sabia se o príncipe encantado teria um motivo para voltar depois. Parei quando chegamos à porta do prédio. Todos deviam estar dormindo – “ou não!” – Pensei maliciosamente. Peguei a chave na bolsa tentando ser o mais breve possível. Não queria deixá-lo ali, havia esfriado um pouco e as mãos dele já estavam bem frias. Coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Antes de entrar me virei e o encarei uma última vez.
_ Obrigada pela noite ótima! – falei com sinceridade. – Durma bem. – me aproximei e depositei um beijo um pouco desajeitado na face dele. Senti o coração novamente dar seus sinais quando toquei a pele gelada dele mais uma vez. Ele não deu sinais de que faria alguma coisa a mais, então entrei e fui para o quarto evitando olhar novamente para trás, para a porta já fechada. Corri para a janela para tentar vê-lo se afastar, mas não havia mais ninguém lá embaixo. Senti a frustração tomar conta de mim. Eu definitivamente deveria ter feito alguma coisa. Poderia tê-lo convidado para entrar, poderia ter tentado prolongar mais à noite. No entanto eu tinha que admitir que estava muito mais cansada do que havia pensado antes, era como acontecia com as garotas bem antigamente, nada de amassos no final da noite. Só uma despedida singela. As meninas não estavam no quarto. Tomei um banho rápido para tirar aquela maquiagem e lavei os cabelos. Cai na cama e apaguei.
***
Acordei no outro dia com a luz fraca entrando pela janela que eu havia deixado aberta e batendo diretamente no meu rosto. Já eram quase dez da manhã. Não havia sol, o céu estava nublado novamente. Eu só esperava que não acabasse chovendo.
Fechei a cortina bastante contrariada com o sono interrompido. O quarto escureceu um pouco. Voltei a deitar, mas o sono não me embalou nos seus braços. Olhei para o lado, minhas amigas estavam dormindo, um sono pesado. Não havia muito que eu pudesse fazer ali, não conseguiria voltar a dormir, mesmo que estivesse quebrada da noite anterior. Fui ao banheiro e cuidei da minha higiene matinal. Poderia ir até a cantina comer alguma coisa e depois passar na biblioteca. Havia uns livros que eu precisava devolver e essa parecia ser a oportunidade perfeita para isso. Quando acordei de vez não consegui conter meus pensamentos e eles se voltaram para Seth outra vez. Eu podia me perguntar se tudo não havia sido a criação da minha mente se eu não tivesse uma lembrança tão clara dele. Ele parecia perfeito demais para ser real. E eu havia ficado com ele a noite toda. Não exatamente do jeito que queria, não posso dizer que esses pensamentos não me surpreendiam, nunca pensava “nessas” coisas. E eu estava totalmente frustrada por que não havia tido coragem de dar um amasso com o cara mais incrível que já havia cruzado o meu caminho. Pelo menos isso eu conseguia reconhecer em mim, nunca tinha tido peito suficiente para ter uma atitude assim. Para tomar a frente das coisas. Uma palavra perfeita para essa definir minha situação era: C.O.V.A.R.D.E!
Não dava para evitar que o arrependimento me corroesse, mas eu precisava colocar isso de lado. Eu havia tido a minha chance e agora não adiantava mais chorar o leite derramado. Terminei de me arrumar e sai. Eu estava totalmente diferente, muito mais simples. Essa sim era eu: cabelos soltos, meus cachos normalmente eram rebeldes demais para o meu gosto, o mínimo de maquiagem: gloss, rímel incolor e um lápis marrom nos olhos. Calça jeans e uma blusinha regata básica. Num clima de verão como esse mesmo quando o sol resolvia sumir não precisava de muito mais roupa que isso. Olhei meu reflexo no espelho mais uma vez e saí com os livros num braço e a bolsa em outro tentando fazer o menor barulho possível. Quando finalmente sai do dormitório eu não sabia exatamente o que fazer primeiro. Eu definitivamente não estava acostumada a não ter nada para fazer. Sempre havia algo que estudar, um trabalho para fazer e mesmo nos finais de semana os estudos me mantinham ocupada. Hoje tudo o que eu queria era ter a chance de encontrar aquele anjo novamente. Hoje, com a luz do dia as minhas inseguranças insistiam em me bombardear. Será que ele não tinha gostado de mim? Esse devia ser o motivo para ele ter ido embora daquele jeito. Ou será que ele era gay? NÃO! Essa possibilidade deveria ser descartada... Era uma blasfêmia uma criatura como aquela ser gay! Eu é que não devia fazer o tipo dele e afinal eu não sabia quase nada sobre encontros e aquilo não havia sido um encontro. Nós tínhamos acabado de nos conhecer e por mais que a noite tivesse sido ótima (nada de segundas intenções aí) havia sido a mais inocente de todas. Nós havíamos dançado, conversado e ele nunca passou dos limites.
Quando dei por mim estava na frente da biblioteca já. Eu conhecia aquele caminho tão bem que mesmo com a cabeça funcionando a mil por hora meus pés sabia exatamente aonde ir. Entrei tentando deixar todos os pensamentos de lado. Pelo menos eu conseguia deixar os problemas de lado quando estava rodeada por livros. Era o meu lado nerd falando mais alto! Acabei ficando umas duas horas na biblioteca e só quando meu estômago começou a roncar eu saí. Era hora de tentar curtir as férias que estavam aí, sem livros, sem estudos, só diversão e curtição. Mas essas palavras não combinavam muito comigo. Eu andava olhando para baixo, não havia me dado conta até ouvir aquela voz que não estava mais pensando tanto assim nele. Só que agora ele estava perto, o vi quando levantei os olhos, e estava vindo na minha direção chamando meu nome e sorrindo daquele jeito que me fazia esquecer de não suspirar.
_ Oi! – tentei falar casualmente. – Tudo bem? – pelo menos ele ainda lembrava do meu nome!




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